Minha História
Até os 16 anos eu não comia frutos do mar, mas já os preparava. Quando voltávamos das aventuras na Lagoa, eu acendia um fogo no quintal e assava o produto da pesca, basicamente badejos brancos e tainhas.
Nesta idade fiz minha primeira viagem embarcado. Meu tio Raul me levou no navio Jaci Ramos em uma viagem de Paranaguá (PR) a Fortaleza, com escalas em Recife, Cabedelo (PB) e Areia Branca (RN). Foi a primeira vez que pilotei uma embarcação, pois meu tio colocava eu e meu primo Roger para fazer um turno no timão. Nossa missão era ficar de olho na bússola e manter o rumo do navio – sempre com a supervisão de meu tio e de outros dois tripulantes responsáveis pelo turno. O Jaci Ramos tinha 117 metros. O comandante Raul é um “casca grossa” e um dos meus heróis.
Outro herói, meu tio Afonso foi sócio de uma loja de esportes onde se podia comprar equipamentos de pesca. Lá eu consertava armas de mergulho para ganhar um dinheiro extra. Praticamente todos os pescadores submarinos recorriam a essa loja, portanto eu tinha contato com muitos deles. Tio Afonso também era o presidente da Federação Catarinense de Pesca e Desportos Subaquáticos e um dia me convidou para fazer parte da equipe catarinense para disputar um campeonato em Mangaratiba (RJ).
Eu era menor de idade e fui com os amigos Silvestre Olegário dos Anjos e Rudi Zamoner. O coronel Silvestre, com quem pesquei durante muitos anos, era o mais experiente e achou uma pedra com muitos sargos. Pescamos durante todas as seis horas de prova na mesma pedra e ficamos em terceiro lugar na competição. Foi a primeira grande emoção da minha vida. Medalha de bronze e muitos cumprimentos de grandes atletas.
Participei de e ganhei muitos campeonatos. Fui recordista mundial de garoupa e brasileiro de outros peixes. Minha carreira como atleta foi coroada com a participação na equipe brasileira no Campeonato Sul-Americano de 1999. Apesar de não entrar n’água nos dias de prova, já que estava escalado como primeiro reserva, contribuí com a equipe nos treinamentos e fui barqueiro no dia da competição. Tornei-me o único sulista com título internacional neste esporte.
Nos Estados Unidos, trabalhei em um estaleiro famoso chamado Bradford Marine. Meu chefe era Jairo Martins, que é um grande irmão de alma. Nos finais de semana, pescava com o Fabio Hansen. Capturávamos badejos, pargos e lagostas.
Era uma festa. Depois o Jairo me convidou para ser segundo mecânico em uma mega iate de 150 pés, o Southerly. Saímos em abril de 2002 rumo a Saint Thomas, no Caribe e depois cruzamos o Atlântico em direção ao Mediterrâneo. O luxuoso vaso tinha 12 tripulantes para atender 12 convidados. Todo decorado com telas raras e tapetes persas da melhor qualidade. A chef de cozinha preparava banquetes todos os dias e eu estava semprepor perto, absorvendo muitoconhecimento.
Certa vez tive que ir para a cozinha. O barco foi locado a um famoso banqueiro e empresário libanês naturalizado brasileiro. Eles queriam comer feijão e a chef de bordo, apesar de formada em duas escolas internacionais, não tinha muita intimidade com este produto. Expliquei como nós, brasileiros, preparamos nosso indispensável prato e foi tudo muito bem resolvido.
Nessa viagem conheci toda a Riviera francesa – de Toulon a Menton –, costa italiana mediterrânea, Sardenha, Córsega, ilhas gregas e Turquia. Me considero um sujeito de sorte e, quanto mais trabalho, mais sorte eu tenho.
Voltei, depois de quase dois anos fora do país, com a ideia de abrir meu próprio negócio. Com o amigo Arosni Hass Filho, inauguramos o restaurante Capitão & Narbal e, um ano depois, já tínhamos filial na praia da Lagoinha.
Foram dois anos de sucesso, mas não tinha jeito: meu negócio ainda era pescaria. Eu persegui a fórmula para poder pescar e cozinhar, mas naquela época não foi possível. Fechamos o restaurante em plena ascendência.
O marco deste ano de 1994 foi o nascimento de minha primeira filha, Victória. Pouco tempo depois, arrendei com os amigos Amauri Schimidt e Djalma Faraco uma marina e restaurante na Lagoa da Conceição – mesmo bairro do Capitão & Narbal –, que batizamos de Porto Conceição. Fizemos uma temporada de sucesso, porém com baixo retorno financeiro.
Em 1997, fui convidado pelo português Jaime Cohen para elaborar o cardápio e comandar a cozinha de um novo restaurante. Em dezembro, inauguramos o Barracuda Grill, na Lagoa da Conceição. Jaime foi o meu grande mestre na arte de administrar. Veio com a bagagem de 15 anos como dono do restaurante Simba Safari, de São Paulo. Trouxe o irmão Eduardo de Portugal e mais tarde o sócio José Peixe para auxiliá-lo. Após 15 anos, o Barracuda tem outro proprietário e continua sendo um dos restaurantes mais sólidos de Florianópolis.
Minha saída deu-se pelo mesmo motivo que fechei meu primeiro restaurante: a pesca. Eu queria pescar.
Lembro que em 1998 fui convidado pelo maior pescador subaquático brasileiro dos últimos tempos, Paulo Sérgio Nasser Pacheco, para auxiliá-lo no Campeonato Mundial de Pesca Subaquática em Zadar, na Croácia.
Pedi férias no Barracuda e fui mergulhar durante 35 dias nas águas azuis e frias do Mar Adriático. Paulo Sérgio ficou com honrosa oitava colocação. Voltei das férias e só resisti poucos meses no restaurante. Devo muito ao amigo Jaime. Desta vez,fiquei exercendo a pesca como atividade principal por três anos.
Em 2001, dei consulto ria para a montagem de um restaurante chamado Atlantis. Os proprietários eram Jaime Cohen e Celso Raimundo. Fiz um contrato ridículo, cujo final coincidia com a inauguração da
casa. Até hoje me arrependo. Montei a cozinha mais moderna da cidade e não fiquei para fazê-la crescer.
Jaime saiu da sociedade e o Celso, que é muito competente como empresário da área imobiliária e ensino, não teve como manter o restaurante. Vender foi a solução. Tão logo terminou meu contrato com o Atlantis, iniciei com Marcelo Moura e Alexandre Viana um projeto pioneiro no Brasil. Trata-se do Projeto de Arqueologia Subaquática. Dez anos antes, Alexandre havia descoberto um naufrágio e guardou o segredo até mostrar uma foto para Moura e para mim.
Na imagem, ele segurava uma garoupa e a seu lado havia o que pareciam ser vasos de cerâmica. Fizemos uma sociedade na qual cada um tinha a sua função: a do Alexandre era localizar o local exato do sinistro; a do Moura, a logística; e, a mim, coube elaborar projetos e captar fundos. Recebemos o primeiro incentivo do visionário Fernando Marcondes de Mattos. Ele foi o primeiro incentivador do nosso projeto e ajuda até os dias de hoje.
Em 2002, obtivemos da Marinha do Brasil a autorização para pesquisa. Eu estava no sul da Bahia pescando, pois fui em dois invernos para aquele estado em busca de águas claras, badejos, dentões e lagostas, e tive que voltar para iniciar o projeto. Para me manter eu pescava, realizava alguns eventos gastronômicos e trabalhava como mergulhador comercial. Foi uma etapa dura na minha vida.
No mesmo ano, a mãe de Victória me ligou e disse: “Narbal, quero outro filho e gostaria que ele tivesse o mesmo pai da primeira”. Respondi: “OK, estou indo aí”. Quatro meses depois, Luciana estava percorrendo o Caminho de Santiago e me ligou da Espanha dizendo: “Acabei de fazer um teste de farmácia e tudo indica que estou carregando seu filho na barriga”. Maria Esperanza nasceu em maio de 2003.
Voltando ao projeto de arqueologia, em 2004 recebemos a segunda licença, denominada fase de exploração.
Agora podíamos recuperar os artefatos perdidos há 300 anos. O governador Luiz Henrique da Silveira viu as peças que resgatamos e abraçou nossa causa, financiando essa fase. O promotor dessa aliança foi o amigo Wilfredo Gomes. Ele, Fernando Marcondes de Mattos e Luiz Henrique da Silveira podem ser considerados os pais da arqueologia subaquática em Santa Catarina e no Brasil. Conseguiram enxergar além do nosso tempo.
Nasci em Florianópolis em 1963. Ainda criança, fui com meus pais e minhas irmãs Josiane e Andrea morar no Rio de Janeiro, pois meu pai foi designado para auxiliar na instalação da primeira agência do Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) naquela cidade. Voltamos à terra natal em 1966 com minha mãe grávida do Kiko, meu único irmão homem. Naquele ano, meu pai foi convidado para assumir o cargo de assessor técnico na secretaria estadual da Fazenda. O chefe dele era um homem austero a ponto de dar medo e um excelente cozinheiro.
Até o dia em que o conheci, nunca tinha visto um homem cozinhar. Foi em uma noite de uma sexta-feira, quando me deparei com aquele homem enorme com um avental na cintura, que eu soube que um dia seria cozinheiro. O nome do meu inspirador é Ivan Luiz de Mattos. Para iniciar minha formação, tive total apoio da minha avó Ida, que aprendeu a cozinhar com a sogra Albertina d’Aquino Alves de Souza, conhecida carinhosamente na família como vó Bitoca. Eu adorava estar na cozinha da casa centenária da rua Bocaiúva, presenciando muitas vezes a avó Ida brigando com o vendedor de camarões. Naquela época, os camarões eram oferecidos em nossa porta e sempre transportados em cestos de vime instalados no lombo de cavalos. Imagine todo este evento aos olhos de uma criança...
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